✺Mulher de algodão✺

sexta-feira, junho 09, 2017

* Crônica premiada no Concurso Croesia 2017, no dia 09 de junho. O projeto foi organizado por alunos de Comunicação Social da FAESA.

* Crônica publicada no Tendências - Jornal Laboratório da Faesa - Vitória/ES - em Junho/Julho de 2017, edição nº 108.

Mulher de algodão

Acorda. Come. Coloca a roupa. Lembra de colocar a marmita na bolsa. Esquece os brincos. Pega o casaco e abre a porta. No automático. Não perde o ônibus no ponto. Senta feliz porque tem um assento vazio. Pega o texto da faculdade e relê. Chega. Desce. Caminha. Aula de Políticas da Comunicação. Dez horas e vinte minutos. Acaba a aula. Sai da sala. Desce o corredor e na rua ouve um comentário sobre sua aparência. Ao invés de virar a mão na cara do sujeito, vira o rosto para o outro lado com uma expressão efêmera.  Vai para o trabalho. Chega e ouve um comentário sobre seu cabelo, mais curto do que ontem. Ignora. Ignora pelo simples saber de que isso acontece normalmente com uma mulher do século XXI. Ignora porque é o melhor a fazer por agora.

Trabalha mais do que o chefe e infelizmente ganha bem menos que ele. Ele entra na sala e sai. Nunca mais volta. No almoço, ouve falar sobre o absurdo que é o aborto. Fica tanto tempo na sala do setor de comunicação que esquece que todas essas pessoas são conservadoras. É triste o lembrar. Comentários sobre seu exterior são prioritários na mesa quando está almoçando. “Mas por que não falam sobre meu interior pelos menos uma vez?”, reflete. Além de falarem do peso dela que está abaixo do normal. Discurso abundantemente clichê. Ela tenta explicar que é a genética, mas logo desiste. Não tem argumentos contra elas. Ninguém dá a mínima. Dezessete horas: fim do expediente. Finalmente. Sai e vai para o ponto.

Ônibus cheios. Perdeu três só pela caminhada até o ponto. Espera por trinta minutos. Ouve vozes. Respira fundo e finge não entender o que pronunciam. Entra no ônibus. O trocador faz uma piada de mau gosto. Ignora mais uma vez. Está cansada demais para dar a devida atenção que o assunto merece. Ônibus lotado. Caminha no mar de corpos, com uma força a puxando para trás. Consegue chegar ao fim. Alguém levanta. Ela senta. “Que sorte!”, pensa. Precisa chegar a tempo de jantar no restaurante universitário. Porque ela faz uma faculdade pela manhã e outra a noite. “Não faz mais do que a obrigação”, ouve dizer. Passa oito horas no lugar que chamam de casa e ainda precisa ouvir isso? Não há pertencimento.

Faltam vinte minutos para a aula começar. Trânsito maldito. Hoje ela não janta. De dezoito horas às vinte e duas horas: Estudos Literários II. Chega ao dito pertencimento às vinte e duas horas e trinta minutos. Banho. Janta. Aproveita e faz a marmita de amanhã. Dorme. Sonha que tudo está bem. Sonha por um planeta melhor. Sonha por uma sociedade igualitária. Sono divino. Sono surreal. Sono de algodão. O bom do cotidiano ameno e conturbado é que de tão conturbado ela dorme profundamente. Não dá tempo de pensar como foi. Cotidiano de algodão que não suga a ponto de deixá-la acordada. Cotidiano de algodão de superfície rasa. Mulher de algodão que não absorve o exterior. Que tenta passar despercebida. Por tudo o que passou, é fortalecida.





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