Modos de Usar

sábado, julho 11, 2015


Entre linhas, nuvens, maçãs, massan, céus, gargalhadas e um bigode
por Ingrid Lourenço

Quase perdemos o ponto. O sol aparecia e não sumia. Não tinha nem uma nuvem no céu. Mal entrei no Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) e um bigode em um menino veio falar comigo. Sabia que o nome dele era Juan, variante espanhola do nome João, mas o bigode de mexicano foi imprescindível para o reconhecimento. Olhei para o bigode, depois o sorriso, e sabia que aquele era ele, o Arte- educador.

Me mostrou o projeto da Lourenço, irmã de sangue. Um orgulho inimaginável. Ignorando todo o passado-recente, estávamos ali. Juntas. Depois de tanto tempo sem oi. Quem diria, aconteceria um dia. Um passo do tamanho da perna. Pela primeira vez o espaço do núcleo arte-educativa teve em suas paredes obras do acervo do museu. A parede sendo obra exibida no museu. A parede se enrolando com as linhas.


O divertido bigode nos mostrou tudo. Começando, claro, pelo projeto dela. Cada monte isolado era uma mapa astral, feito de linhas. Ayla e as linhas. Linhas de costura. O que já a vi fazer e refazer dias e noites em casa mas não entendia. O mapa astral de cada funcionário do Museu estava enfeitando a parede direita. Localizado na frente da porta de vidro, privilegiado lugar que dava para o pôr do sol. Linhas vermelhas e azuis contornavam cada centímetro e, rígidas, suas ligações eram feitas no parafuso. Ela viu as que estavam saindo do parafuso, e tirou duas linhas penduradas que descompassavam a harmonia-padrão.

Próximo ambiente: biblioteca. 
Porque era o momento que Juan tinha para conversarmos
"A exposição foi bem acolhida, apesar de todos os trabalhos apresentados serem contemporâneos, conceituais, e trazerem uma concepção diferente do que é arte” 
Antes que as crianças chegassem.
“Especialmente na exposição atual, que atuou no período de férias de fevereiro o número foi maior de turistas, tanto de outros estados quanto de estrangeiros” 
Passaram 20 minutos
“Coisas que não são costumeiras no Centro são bem recebidas e bem divulgadas na imprensa”
 E nada
“Foi uma exposição que abriu meu campo de visão sobre o que é arte contemporânea. Que não é só aquela maluquice sem sentido, que causa uma repulsa”
E tudo.
“Amadureci em relação a arte contemporânea. Ainda não sei o que é a arte contemporânea. É um processo que nunca para”, Juan Gonçalves, arte-educador do Museu MAES. 

Mediador
A maneira como se chama o educador, ou arte-educador, foi alterada no museu. Antes era usado o termo mediador, para caracterizar aquele que interage com as artes, que desenvolve o pensamento dela junto com o pensamento do visitante. Uma relação horizontal. “A que ponto a arte precisa ser mediada? Diante de uma tela, é preciso de uma pessoa para mediar esse diálogo? Foi nesse pensamento que a gente chegou na palavra: educador/arte-educador”, explica Gonçalves.
Quando subia as escadas, o segurança me avisou que não tinha energia no momento e que o segundo andar estaria deserto. Escuro e sem visão. Desci da metade que tinha subido. Saímos e modelamos no sol da calçada. Esperando, no quente, a energia da luz se mostrar presente. Controladora de eventos. Juan tirou fotos nossas. 
Ouvimos uma voz feminina gritando o nome dele e as crianças chegaram.

Crianças
As crianças encheram o lugar com alegria, gritos e sorrisos. O baixo volume da voz, entende-se por: timidez do lugar não-conhecido, logo cessou e o volume alto tomou conta do museu. O Museu não era mais o mesmo. Transbordou. Efervescência intrínseca de crianças com cinco anos de idade transbordou.
Após reunir os pequeninos a sua volta, sentados no chão, Juan se apresentou e disse que o museu estava sem energia, sem luz, e que, por isso, deveriam começar a visita por outro lugar. Mas qual lugar? As crianças não ligaram. Estavam felizes por estar ali. Depois que Juan disse que a energia tinha caído, ela voltou. Só queria atenção.
Brilho no Breu. 
Brilho que trouxe a luz de volta. 
Brilho que são as crianças.
Iluminura no breu.
O Museu vazio é bonito pela solidão das obras que os seguranças observam com astúcia. Porém, o Museu cheio de crianças possui uma alegria fora do normal. 
Comentários sinceros. Fala humilde. Se divertiam com o que tinham. 
O silêncio mórbido foi substituído pelo movimento sapeca.
As crianças, guiadas pelo Juan, se encontraram e se encantaram nos diversos cantos nos projetos expostos. A visita das 35 crianças teve continuação e eu, pude subir as escadas para o segundo andar.

Maçã 
O ser humano depois de um tempo parado se torna insólito. Se torna nenhum.
A maçã ainda está ali, depois de todo o tempo decorrido
Apodrece(u)
                                                                                  mas o espaço é o mesmo inicial, a diferença é que sua aparência bonita e jovem murcha. Some.
Reino Fungi. O fungos tomaram conta.
Possui não mais um ser vivo e sim um interior vazio. Eco. Oco.
Mas o corpo ali permanece.
Mesmo com o corpo inútil para os vivos os fungos gostam.
Apenas a primeira maçã não foi mordida.
No contato com a saliva inquinada do ser humano se putrefizeram.

“Sem título” -Dionísio Del Santo, 1989
Serigrafia sobre papel.
Uma noite estrelada.
Muito fácil.
A arte precisa ser mais complexa. Ou será que pode ser aquilo que a gente imediatamente vê?
Galinhas ciscaram por ali e essas são as marcas dos pés das galinhas.
De branco e preto.
Observei várias desenvolturas.
Confundindo a minha imaginação até o fim.

Massan -Elpídio Malaquias 
Cores. Sem técnica precisa. Sua técnica é a não-técnica. Não querendo mostrar que sabe pintar. Ele pinta. Pinta o que vê, o que sente. "Meninas. vendendo massan"
Laranja, azul claro, amarelo. 
A parte de cima se assemelha a um caju. 
Majus. 
Apesar do olhar espantado, o colorido agrada a quem vê.


Edições Limitadas
Pequenas revistas estavam em cima de uma mesa em uma sala branca. Posicionadas ao redor das extremidades. Convidando o leitor a se juntar a elas. Suas capas eram variadas, nem sempre proporcionando um agradável olhar ao ser cru em cultura. Nem sempre completando a palavra proposta. Nem sempre pronto do jeito que o humano é acostumado a ver.

O projeto é o que mais casou com a ideia da Exposição Modos de Usar. O artista, Gabriel Borem, operou diretamente em exemplares de revistas de arte e cultura por meio de cortes e reencadernações para a estratégia de edição. Borem desmembrou as revistas de suas capas e soltou cada uma de suas páginas. Com base em uma proporção de aproximadamente 25% da área do tamanho de cada publicação foi feito um gabarito que projeta as áreas de corte; em cada página foi feita uma seleção de recorte com o gabarito. Depois, as páginas e a capa foram reunidas e encadernadas em uma nova edição, transformando-se em uma revista editada em dimensões variáveis. Respeitando a ordem das páginas mas com o tamanho aproximado de um quarto do exemplar original.

Inicialmente, ao entender a criação minha ideia foi selecionar, aleatoriamente, um livro e abrir em uma página também, aleatória.
“Clássico. É na morte do pai que as humilhações sofridas em toda uma vida decantam-se na tomada de consciência racial rigorosa, mas livre de ódio. De um filho desta Terra” 
e
“(...) Essas paisagens ficcionais representam geografias impossíveis que existem como ficções de territórios inventados”
foram os resultados do experimento.

Em 2006 Gabriel Borem foi convidado a participar de uma mostra coletiva itinerante proposta por artistas do Rio de Janeiro que aconteceu na Galeria Espaço Universitário, na Ufes. Na época, Borem possuía uma produção muito intensa em pintura, quase sempre com grandes formatos. Mas a mostra em questão tinha uma particularidade muito específica: os trabalhos deveriam ser de no máximo 10 x 10 cm, por isso foi chamada de "Nano Exposição". “Foi diante da necessidade de trabalhar com pequenos formatos que vislumbrei a possibilidade de editar a minha primeira revista,reduzindo seu tamanho final para dentro dos paramentos da mostra”, explica Borem.
A partir dai, seguiu editando outros exemplares tendo realizado em torno de 24 revistas até 2009, porém sem dar o acabamento. Em 2013, reuniu ideias a cerca da proposta, desenvolveu conceitualmente e alinhou o projeto Edições Limitadas ao escopo do edital.
“Submeti o meu trabalho em forma de projeto para o edital 015/2013 de bolsa ateliê da Secretaria de Estado da Cultura (Secult)”, conta Borem.


Céus

Ao entrar em uma sala com as quatro paredes pretas, parei. e olhei da esquerda para direita. Não consegui terminar a volta de 180 graus. Parei no momento em que reparei na quantidade de fotografias de céu que estavam na parede do meu lado (esquerdo).
Meu corpo anulou os sentidos. Imobilizei todos os ruídos exteriores. 
Apenas eu e os céus.
Estava mesmo vendo (5x4x8) 160 fotografias de céus? 
Vontade instantânea de abraçar a parede. De guardar cada foto do céu na memória, de guardar na minha bolsa, de levar para casa e colocar nas paredes do meu quarto. Passado o momento de impulsos, 20º sul foi o projeto que mais prendeu minha atenção. Admirei cada pedacinho do céu de cada estação de Manguinhos, localizado no ES, e Iquique, localizado no Chile. A artista, Ludmila Cayres, estudou a luz dos céus das duas cidades que se localizam a 20º sul de latitude. Produziu registros no período de um ano, acompanhando as quatro estações. Um estudo cromático dos horizontes.
Céu alaranjado, céu azul, céu escuro, céu acinzentado, céu amarelo, céu cor de musgo, céu verde, céu cor de burro quando foge, céu lilás, céu rosa, céu com nuvens formosas, céu cor que lembra saudade...
Negritude.
O fundo preto realça muito mais a cor de cada fotografia.
Nenhuma cor se repetia. Nenhum céu era igual. Todas as nuvens dançando em descompasso. Excêntricas. 
Gosto de nuvens por esse motivo: porque elas nunca estão do mesmo jeito, são efêmeras, como devemos ser.
Os céus de Iquique sendo desconhecidos aos olhos de uma capixaba. É surreal. Cada foto tem uma cor específica. Já em Manguinhos, não. Em Manguinhos existe uma variação enorme de nuvens, de céus. Uma variação frequente aos nossos olhos. O que não é visto em Iquique. Porque em uma fotografia, o céu é azul e logo na outra é laranja, lilás... parecem de outro mundo. 
As nuvens tem formatos diferentes, porque o vento lá é outro. Não é em nada comparado ao que vemos aqui no Espírito Santo. Possui um contraste gritante.

Um sorriso embaixo do bigode
Impossível estar em um Museu e não notar a diferença que faz quando as crianças estão por ali. A visita é calorosa e divertida. Juan é comunicativo com jovens, mas ao falar com crianças seu rosto ilumina. Mostrando que aquele é o momento dele. O momento de ouvir as verdades abusadas das crianças. O momento que elas perguntam se seu bigode é de verdade ou é de mentira. O momento em que os vários sorrisos se fazem refletir no seu olhar. “É o público mais legal de se trabalhar. Até porque são crianças, elas ficam impressionadas com tudo e eu acabo me impressionando com o impressionamento delas”, explica Gonçalves. 
Sentado no chão, no meio das crianças, Juan se confundia com uma. Percebi que seu olhar de interesse e curiosidade era igualável ao dos pequeninos. “O que elas te dão de repertório, de imaginário, é incrível. É uma troca”, diz Gonçalves. Perfeita combinação. Um educador feliz e crianças animadas. “Gosto de pensar que a arte-educação às vezes deseduca. Não no sentido de virar todo mundo louco, mas para sair de um padrão, do ‘não pode encostar’, do ‘sou um robô’”, conta Gonçalves.

Quando as crianças chegam no segundo andar, Juan pergunta: quem está gostando do Museu? De todas as crianças, cinco dizem sim. Uma diz não. As paredes rabiscadas reinaram e conquistaram a atenção de cada uma delas. 
Durante a visita, foram conduzidas, uma atrás do outra, em trenzinho fazendo piu-í-tchá-tchá-tchá. “Os alunos estão eufóricos, gostei da participação deles. A melhor parte foi quando eles puderam desenhar, então, nesse momento eles já manifestaram o primeiro impacto sobre o trajeto e a chegada ao Museu”, conta Gabriela Rouxinol, professora de Artes.

Depois de tanto andar, as crianças foram embora e o museu voltou à solidão inicial. 
De sorriso, só o bigode.
Os céus, as linhas, as maçãs, as pinceladas... foram desbotando no tempo até desaparecer.
Fomos embora. Quem diria, aconteceria um dia. Eu e ela. Juntas. De novo.
Nos áudios é possível reviver as conversas, mas nunca será o momento de novo. Nunca será o replay.

Serviço
Localização: O Museu MAES é localizado na Avenida Jerônimo Monteiro, 631 - Centro, Vitória – ES. 
Período da exposição: A exposição Modos de Usar será apresentada no período entre 07/02 a 31/05.
Visitação: Terça a sexta-feira, das 10 h às 18h. Aos sábados, domingos e feriados das 10 às 17h. Entrada gratuita.

OLHO: “Gosto de pensar que a arte-educação às vezes deseduca. Não no sentido de virar todo mundo louco, mas para sair de um padrão, do ‘não pode encostar’, do ‘sou um robô’” – Juan Gonçalves, arte-educador.

BOX: 


História do MAES

O Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo - MAES, é um Patrimônio Cultural do Estado do Espírito Santo, pertencente à estrutura organizacional da Secretaria de Estado da Cultura – Secult. Está sediado em um prédio tombado pelo patrimônio do Estado, que existe há mais de 80 anos. O prédio foi construído a partir do projeto arquitetônico do tcheco Joseph Pitilick e concluído em 1925. Foi inaugurado no dia 18 de dezembro de 1998. Na ocasião foi feita uma homenagem ao artista que nomeou a instituição: o capixaba Dionísio Del Santo, que faleceu no ano seguinte.
O MAES já sediou no passado o “Serviços de Melhoramentos”, órgão responsável pelo planejamento urbanístico da cidade. Posteriormente acolheu várias instituições públicas estaduais como o Diário Oficial, setores da Secretaria de Administração e dos Recursos Humanos e a Secretaria da Fazenda. O prédio foi cedido ao Departamento Estadual de Cultura (DEC) em 1987. Atendendo à uma antiga reivindicação que mobilizou intelectuais e artistas capixabas, o DEC resolveu abrigar a sede de um museu no antigo edifício. 
O MAES possui uma área expositiva com cinco salas e hall, distribuídos em dois pisos. Uma Biblioteca que tem aproximadamente 3.000 títulos na área de artes plásticas, patrimônio e museologia, além de um auditório com capacidade para 40 pessoas.
 Na Exposição atual, Modos de Usar, os artistas selecionados pelo Edital 015/2013 da Secult, apresentaram alguns dos trabalhos que resultaram das pesquisas desenvolvidas ao longo da Bolsa Ateliê. 
Todos os projetos da exposição expressam alguma noção ampliada de “uso”. Seja na proposição de usos alternativos da lógica museológica, ou no trato das imagens, seja na ambição crítica em relação às normatizações técnicas e de linguagem, seja nas exigências que endereçam à percepção. Os trabalhos elaboram instâncias em aberto, inconclusas, que convidam o espectador a envolver-se nas experiências.
As idéias de “uso”, portanto, não se esgotam em funcionalidades e interatividades mecânicas, nem na instrumentalização alienada do consumo, mas são construídas e se oferecem como forças de apropriação poética.


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